03/11/2011 - 08h23
Complexo de poodle
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergiomalbergier/1000849-complexo-de-poodle.shtml
Nossa presidenta chegou à reunião de cúpula do G-20 na França mais uma vez dando sermão nos já estressados colegas do hemisfério Norte sobre o que eles devem e não devem fazer para sair da crise. Parecia chefe de missão do FMI nos anos 1980 dando pito nos governantes da América Latina em crise.A política externa econômica brasileira está cada vez mais agressiva tentando ser mais assertiva. Elevou a retórica, o protecionismo e o apetite por litígio.
Dilma Rousseff tem razão ao pedir "estímulo ao crescimento, ao emprego e à melhoria de vida das populações", como fez ontem ao chegar a Cannes. Aliás, quem é contra isso? Mas ela fala daquele jeito que parece uma bronca. E é.
E Dilma ainda nos intrometeu no impasse europeu que opõe Grécia a França e Alemanha ao defender mais gastos públicos e menos rigor fiscal para os europeus saírem da crise. Paris e Berlim exigem justamente o contrário de Atenas em troca do socorro financeiro, mas o governo grego botou a política na frente da economia e preferiu convocar um plebiscito sobre o pacote, enfurecendo Paris e Berlim.
O pior é que a assertividade dilmista vem de convicções duvidosas, para dizer o mínimo, sobre a eficiência do Estado como agente econômico. É uma assertividade precoce, presunçosa diante das profundas carências e misérias brasileiras.
Há ainda um fosso enorme que separa nossa economia e nossa qualidade de vida média das dos países a quem Dilma e seus assessores econômicos adoram dar lições de desenvolvimento (ou desenvolvimentismo). Dois rankings internacionais divulgados recentemente deixam isso claro.
No ranking sobre facilidade de fazer negócios do Banco Mundial, o Brasil está na posição 126 entre 183 países. Já no IDH, o ranking da ONU que mede o desenvolvimento humano em 187 países, o Brasil está na posição 84. Estamos muito atrás de quem criticamos em ambos.
É claro que nossas deficiências e carências são paradoxalmente nossas forças. Saná-las é caminho certo para o desenvolvimento. É por isso que nós crescemos mais que os países ricos.
Crescemos quase por inércia depois que consolidamos as regras básicas da economia de mercado num regime democrático. O potencial brasileiro é enorme, e bastou essa estabilidade para decolar, mesmo com ambiente de negócios horroroso. É uma força bruta, do brasileiro, sobretudo um forte, criativo e maleável para enfrentar o peso pesadíssimo de tributos, custos e obrigações.
Lula (boa recuperação!) e FHC foram presidentes solares, o melhor de seus grupos políticos, maiores que a vida, sínteses diferentes do mesmo país, complementares na realização máxima da história brasileira de fechar e firmar o consenso nacional em torno da democracia liberal capitalista.
Com Dilma, muito mais terra do que sol, o Brasil poderia ter a gerente que precisa para resolver problemas tão básicos como levar esgoto aos lares de milhões de brasileiros ou facilitar a abertura de empresas.
Apontar o dedo para o problema econômico dos outros não move um palito para resolver os nossos problemas. Nem os deles.
Não vamos trocar o complexo de vira-latas envergonhado pelo complexo do poodle, latindo sem consistência.

Sérgio Malbergier é jornalista. Foi editor dos cadernos Dinheiro (2004-2010) e Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha.com às quintas.
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