quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Questões políticas


Ovo da Serpente Choca Novamente

Carolina Vila-Nova e Luisa Belchior (Folha de S. Paulo, 31/07/11) revelam que, nos últimos dez anos, seguindo a orientação da política externa americana, a Europa centrou sua atenção no combate ao extremismo islâmico e subestimou a ameaça potencial da extrema direita, deixando de monitorar seu crescimento na região. Mas, enquanto a Europa investigava as comunidades muçulmanas, e fomentava indiretamente a islamofobia, base da extrema direita, vários países tiveram aumento da representação de partidos de direita populista em escala nacional e da ocorrência de atos de extremismo.
Nos últimos anos, o cenário da extrema direita na Alemanha cresceu em termos de atos de violência, lenta mas firmemente, havendo cerca de mil casos por ano. Desde a reunificação, do país, em 1990, mais de 300 pessoas já foram mortas nessas ações.
O mapa da extrema direita é bem diverso ao redor da Europa. Em alguns países, seu crescimento é ilustrado pela participação de partidos no governo ou no Parlamento em proporções inéditas, na casa dos dois dígitos. É o caso de Itália e Holanda. Em outros países, houve um aumento da ação extremista que não se traduziu em aumento da representação política, como na Alemanha. Há terceiro grupo de países em que ambos os fenômenos se articularam, como Áustria, Hungria e a Escandinávia de modo geral.
Embora se fundamentem de repertório ideológico comum: anti-imigração, anti-integração, anti-islã, há também diferenças regionais. No Leste Europeu, onde há poucos imigrantes e poucos muçulmanos, o alvo preferencial dos extremistas são minorias tradicionais, como ciganos e judeus, casos de Bulgária, Romênia, Hungria. No norte europeu, o movimento aparece como reação a políticas que favoreceram a chegada de refugiados e migrantes econômicos, muitos muçulmanos, casos de Dinamarca e Holanda.
Esses partidos responderam a incertezas e medos da sociedade europeia em crise econômica, social e política. São países que passaram por mudanças maciças nos últimos 20 anos.
O aumento da imigração traz diversidade cultural que confronta as pessoas que estão desempregadas ou temem perder o emprego. Acusam, então, a capacidade de integração dos migrantes, o temor da presença de muçulmanos e do fundamentalismo islâmico e a preocupação com a crise econômica e o futuro.
Nesse sentido, o crescimento dos partidos de direita se deve que eles souberam capitalizar, politicamente, esses medos. Tiveram sucesso porque o establishment político não lidou com essas questões como deveria, respondendo à crise.
Grupos extremistas surgem nos partidos da direita populista, embora os partidos em si não sejam violentos. Mas sua ideologia é potencialmente violenta. É terra fértil para proveito de jovens avessos ao islã, nacionalistas, xenófobos e cibernéticos. Este seria o novo perfil de membros de grupos e movimentos de extrema direita na Europa, traçado pela Europol (polícia europeia) e por especialistas, para os quais a internet tem protagonismo fundamental.
É na plataforma virtual, mais que em manifestações, que esses grupos mantêm a maior parte de suas atividades. Para despistar a atenção da polícia, usuários das mais de 5.000 plataformas de xenofobia na internet catalogadas pela Europol usam técnicas como o cadastro em um servidor estrangeiro ou sua troca constante.
Esses grupos se beneficiaram também da crise econômica de 2008. Com o desequilíbrio da economia na Europa e o disparo do desemprego, partidos de ideologia ultradireitista têm conseguido participações históricas em eleições. Esses partidos souberam tirar proveito do voto de protesto contra a crise.
João Batista Natali (Folha de S. Paulo, 31/07/11) mostra também que os ultranacionalistas se opõem à União Europeia e a seus desdobramentos, como a abertura interna das fronteiras. Também agitam o espantalho da xenofobia e da suposta chegada em massa de estrangeiros islâmicos. Combatem o multiculturalismo e reivindicam a preservação de “pureza étnica”, para eles ameaçada. Obviamente, “é um equívoco idiota. Os atuais países europeus são o produto de longa miscigenação, com etruscos, normandos, mouros ou visigodos se misturando às populações locais da Antiguidade à Idade Média”.
Os partidos islamofóbicos têm fôlego eleitoral em Holanda, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Hungria, Noruega, Polônia e Suécia. Estão em recuo na Áustria, estabilizados no Reino Unido e são uma incógnita na França.
Não tenho certeza a respeito da dedução de Natali que não é “nada que se assemelhe, no entanto, a uma onda neofascista capaz de submergir o continente”. Suas evidências apoiadas nas eleições não me convenceram. “Nas eleições para o Parlamento Europeu de 2009, que obedecem rigoroso critério proporcional, em 13 dos 27 países da UE a extrema direita não elegeu ninguém. No plenário europeu, são agora apenas 16 os extremistas em meio a 736 cadeiras”.
Lógico que “isso não permite um otimismo exagerado. Na Alemanha, por exemplo, sem eleitos extremistas, atuam, paralelamente ao ultranacionalista NPD, cerca de 15 mil neonazistas sem participação na vida parlamentar”.
Outro problema está na ambiguidade da direita tradicional europeia em lidar com a xenofobia. Dirigentes como Nicolas Sarkozy e Silvio Berlusconi, de um lado, favorecem o fortalecimento das instituições da União Europeia. Mas, de outro lado, assumem linguagem em que o estrangeiro, sobretudo o cigano, mesmo se europeu, é visto como indesejável.
A prolongada crise de crescimento na Europa gera formas perigosas de preconceito que não têm só por alvo o muçulmano. A revista “Der Spiegel” discorreu recentemente sobre os ódios étnicos de adolescentes recrutáveis por neonazistas. Encabeçam a lista os albaneses (“todos são traficantes”) e os russos de origem germânica.
Infelizmente, essa onda de intolerância se alastra também pelo “Novo Mundo”. Nos Estados Unidos, o Tea Partymostra suas garras, e em São Paulo os skinheads massacram, impunemente, gays, nordestinos, enfim, todos os que não (os) toleram.

       
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